11.5.13

Das salas de chat e outras considerações

Não sei se algum dos leitores deste blogue alguma vez visitou uma sala de chat. Se nunca o fez, não deixe de o fazer, até porque, sociologicamente falando, é muito interessante conhecer a fauna que por lá saltita.
Há salas de chat para todos os gostos, interesses e feitios. Para os amantes da bola, para os habitantes de uma certa região, para os que buscam amizades e para os que, estando numa grande ansiedade, procuram algo tão simples como um parceiro ou uma parceira para uma hora tórrida de sexo.
Os nicknames já nos podem proporcionar uma antevisão do delírio de quem está do outro lado. Atendendo a que este é um blogue lido por maiores e também por menores, escuso-me a dar exemplos, deixando, porém, à imaginação dos leitores a liberdade de encontrarem tudo o que, humanamente, é possível existir...
Estabelecendo a comunicação, mesmo nas salas de chat mais pretensamente não marcadas ou menos sexualizadas, indubitavelmente o participante tem de aprender a comunicar com um outro código linguístico que não o da norma culta. Há que aprender a interagir por meio de abreviaturas, palavras cheias de erros ortográficos e todo um sem número de itens que fazem desta forma de comunicação uma espécie de grau zero da linguagem.

Depois, o participante tem que estar apto a responder rapidamente a questões como a idade, o local de onde tecla e os interesses que o levam a encontrar-se naquele local e naquela hora com uma fauna tão específica. E os interesses, se quiser manter a comunicação, não podem passar por filosofia, literatura, cinema, política ou cultura. Tudo se resume à resposta a uma pergunta: queres real? Diz o local e a hora.

Tenho a sensação que anda tudo doido.
Não acredito que a voracidade de viver tudo a toda a hora e tão intensamente com tant@s parceir@s seja sequer exequível.
Talvez haja alguém, no meio de um delírio colectivo, alimentado pela voracidade do mundo tecnológico contemporâneo, que, de facto, frua e se sinta realizado. Quanto à grande massa, esses parecem-me indubitavelmente condenados à frustração e à loucura.

Até as gaivotas fogem para terra...

Os tempos definitivamente já não são o que eram.
Sente-se um ar pesado, um ar de chumbo. Pressente-se que algo vai muito mal no reino da Dinamarca.
Até as gaivotas, habituais habitantes de um espaço onde a fronteira entre a terra e o mar se estabelece, decidiram voar para terra, bem dentro e grasnam, como loucas, voando em círculo por cima da janela do meu quarto. Quem me conhece sabe bem que o mar dista do meu quarto perto de 50km e que não há curso de água nem perto nem longe.
Alguém mais avisado dirá que este é o sinal de que a tempestade se aproxima, uma tempestade devastadora, tsunâmica, arrasadora de todos os habitantes marinhos e de alguns terrestres. Não sei. Francamente não sei.
As cabeças bem pensantes e iluminadas continuam a afirmar que estamos no bom caminho. Que tudo o que estamos a passar é um sinal arrebatador do sucesso. Que tudo isto é muito bonito. E que o povo aguenta tudo, ai aguenta aguenta...!
Não tenho tantas certezas.
Mas o futuro aí estará para confirmar ou infirmar estes modos inusitados de olhar o mundo. Espero poder sobreviver ao que aí vem.

17.10.12

WEHAVEKAOSINTHEGARDEN: Angela Merkel, persona non grata em Portugal

WEHAVEKAOSINTHEGARDEN: Angela Merkel, persona non grata em Portugal:   Depois da Grécia, Angela Merkel deve visitar Portugal no próximo dia 12 de Novembro. Depois de conseguir vergar os governos dos paíse...

6.10.12

PALAVROSSAVRVS REX: LISTA LAGARDE E A POCILGA POLÍTICA GREGA

PALAVROSSAVRVS REX: LISTA LAGARDE E A POCILGA POLÍTICA GREGA

Um texto digno de leitura sobre algo que nos une profundamente a Grécia.
E como corolário das espantosas comemorações do centenário de implantação da Republica.

15.7.12

Já ardem capitais europeias...

Por esta Europa fora, os escândalos e as fraudes sucedem-se a um ritmo avassalador. Nunca como hoje a face de um capitalismo selvagem, que não olha a meios para maximizar os seus lucros, se tornou tão evidente, condenando milhares à pobreza e, em muitos casos, ao desespero e à morte.
A última bomba - que conhecerá pavorosos desenvolvimentos ao longo dos próximos dias e semanas, com consequências políticas e económicas ainda imprevisíveis - é a maior fraude financeira da história: a manipulação, efectuada por grandes bancos, da taxa de referência Libor. As redes sociais têm vindo a assinalar que não foi apenas o Barclays que esteve envolvido nessa fraude, mas muitos outros bancos, incluindo poderosos bancos alemães e norte-americanos.
Na vizinha Espanha, a anónima deputada Andrea Fabra brindou os desempegrados, em plena sessão de parlamento, com um explícito uso do espanhol vernacular que, além de indignar os presentes, lançou fogo a toda o país. Neste momento, para além do que se diz e se escreve, são já milhares os que exigem a sua demissão.
Por cá, o circo ainda vai no adro. Mas as labaredas já quiemam: um personagem político, exuberantemente conhecido nas redes sociais, e pelos piores motivos, teima em assobiar para o lado, clamando, com o apoio dos ainda poderosos deste país sob intervenção externa, que está tudo bem e que não se passa nada....

Esperemos que a fraude Barclays não venha a contaminar também outros bancos do nosso reduzido sistema financeiro. É que a bancarrota do BPN já nos colocou sob intervenção externa e o BPN apenas representava 3% do sistema financeiro português....

As próximas semanas serão muitíssimo interessantes!

14.6.12

Verão quente antecipado

A Europa enfrenta, nas próximas semanas, um dos momentos mais decisivos da sua história recente.
As informações provenientes das principais agências noticiosas internacionais apontam para a existência de "planos de contingência" caso a Grécia venha a abandonar o euro. As declarações de líderes políticos europeus não são nada securizantes. Parece que o apocalipse estará prestes a ter lugar.
Estas notícias, acrescidas daquilo que está, neste momento, a suceder na Grécia - com o povo em pânico, armazenando bens alimentares e concretizando aquilo que os anglo-saxónicos designam como um bank-run, além dos 3000 suicídios já registados desde o início da crise - , não auguram nada de bom para um projecto europeu comum que se desejava solidário e capaz de, assegurando crescimento económico, garantir simultaneamente direitos sociais para todos. 
O que penso eu disto tudo?
Três notas apenas para explicitar o meu ponto de vista:
1) Líderes fracos são sempre um problema acrescido para todos. A Europa tem um presidente da Comissão que não lidera, que apenas é ouvido quando fala em público. Parece que a Europa tem um presidente, cujo nome é praticamente desconhecido dos europeus, e cujo papel não se sabe muito bem qual é. Só uma voz se ouve na Europa: a da senhora A. Merkel, clamando e ameaçando quem com ela não concordar, por mais e mais austeridade. Ainda que a receita da austeridade e a punição exemplar dos gregos tenha, para já, levado 5 países à recessão (e alguns deles ao colapso económico-financeiro) - são 5 sim, ainda que um deles formalmente ainda não tenha solicitado o resgate! - , a senhora Merkel continua e continuará a insistir na mesma tecla. Como disse antes, líderes fracos ou líderes medíocres são sempre um problema para todos.
2) O problema de ver o mundo à luz da ideologia. Predomina na Europa uma ideologia neo-liberal, segundo a qual o importante é reduzir os custos para aumentar a competitividade. Esta ideologia tem uma outra faceta: os gastos sociais devem ser eliminados pois cada um deve gerar riqueza para si próprio. Como se operacionaliza esta ideologia? Do modo mais linear que se possa imaginar: cortam-se os salários de quem trabalha para gerar uma deflação interna. Teoricamente os custos de produção são reduzidos e, portanto, a produtividade aumenta no sentido em que se possam vender os produtos por um preço menor. Ideologia de cartilha ou da treta! Há um reverso da moeda que esta ideologia omite: a deflação interna gera redução do consumo, gerador, por sua vez, de desemprego, tipo pescadinha de rabo na boca... O Japão experimentou esta receita no passado e há 25 anos que se encontra em processo de deflação... Obviamente que não é desta forma que se vai gerar crescimento económico e geração de emprego! Acrescente-se, no caso europeu, globalmente considerado, que há uma dívida enorme para pagar, a qual só pode ser paga se existir crescimento económico... Acho que este aspecto já foi suficientemente explicado e não é necessário dizer mais nada...
3) O lugar das pessoas no mundo económico. A revolução bolchevique, em 1917, foi desencadeada por um forte sentimento de opressão que os trabalhadores fabris sentiam na então Rússia czarista, tendo originado uma ditadura terrível e mortífera cuja memória ainda causa horrores a quem a viveu de perto. Hitler ganhou eleições e subiu ao poder no rescaldo de um país devastado pela 1ª guerra mundial, e pelas humilhações e compensações financeiras que teve de pagar aos vencedores. Não será necessário relembrar todo o pavor e a cultura da morte que se instalou por esta Europa fora... Receio muito que o momento actual que vivemos esteja a criar as condições para o ressurgimento de algo profundamente perigoso e pernicioso para todo o agir colectivo. 

7.4.12

Ladrões de Bicicletas: Et voilà!

Ladrões de Bicicletas: Et voilà!: Aí está o segundo programa da troica, apresentado como um inocente guarda-chuva a abrir em caso de necessidade, isto é, em caso de fracasso...

Portugal Uncut: "A solução? Sugar-lhes o tutano." (Troika)

Portugal Uncut: "A solução? Sugar-lhes o tutano." (Troika): A Alfredo da Costa é encerrada pouco depois de um farmacêutico reformado dar um tiro nas têmporas, gritando "não quero deixar dívidas aos me...

Não perdoamos os carrascos que nos «crucificam»!

Não perdoamos os carrascos que nos «crucificam»!


O governo de ocupação aniquilou-me literalmente qualquer possibilidade de sobrevivência dado que o meu rendimento era inteiramente proveniente de uma pensão que eu, sem qualquer apoio de ninguém nem do Estado, financiei durante 35 anos.
Porque a minha idade me impede de assumir uma acção radical (se não fosse isso, se um cidadão decidisse lutar com uma Kalashnikov, eu seria o primeiro a segui-lo), não me resta nenhuma solução excepto colocar um fim decente à minha vida antes de ser forçado a procurar comida nos caixotes do lixo e de ser um peso para os meus filhos.
Eu acredito que a juventude sem futuro brevemente empunhará armas e enforcará todos os traidores nacionais de cabeça para baixo, como os Italianos fizeram a Mussolini em 1945.

Dimitris Christoulas


23.3.12

Porrada para todos


Um país à beira da ruptura porque alguém, incomodado com os protestos, achou que o povo precisa é de ganhar muito respeitinho pelo chefe e nunca criticar ou protestar. Quanto muito, deveriam sair do país, mas nunca contestar o facto de o chefe nos querer bons alunos, alunos aplicados, alunos não piegas. E para isso nada melhorar do que distribuir pancadaria, já agora aos que mostram uma máquina fotográfica.

Isto além de trágico mostra bem a reduzida inteligência de quem deveria ter responsabilidades políticas. É que se esqueceram que estamos em 2012 e que hoje já todo o telemóvel, mesmo o menos sofisticado, possui câmara de filmar, e que existem redes sociais e internet...

Enfim, nada de novo no Reino da Dinamarca...

19.2.12

Não são preciasas palavras, pois não?


A imagem pertence ao blogue Ladrões de Bicicletas e exprime o nosso futuro próximo. Um futuro trágico e pavoroso, apesar daquilo que muitos dos fazedores de opinião nos quererem fazer crer.
Claro que, e aqui temos que concordar com todos os que assinaram o Memorando de Entendimento com a Troika, se não fosse o programa de assistência financeira já estaríamos todos na bancarrota. E a fome e distúrbio social que se anuncia já fariam parte do nosso quotidiano.

13.2.12

News from Greece

A caixa de Pandora já foi aberta e todos sabemos como esta narrativa irá terminar.

A recente aprovação de mais um pacote com duríssimas e inexequíveis condições de austeridade, a cumprir pelo povo grego, sob imposição da Troika comunitária, mais não permitirá do que fornecer um ténue balão de oxigénio, tempo considerado mais do que suficiente para que os poucos fundos que ainda detêm dívida soberana grega a possam transaccionar no mercado secundário. Porque é exactamente disso que estamos a falar. Ganhar tempo para que os activos tóxicos possam ir parar a outras carteiras, permitindo que a bancarrota - o default, como agora se diz - seja organizada. Tudo isto é por demais evidente, já que nem os responsáveis políticos alemães o negam.

A Grécia está falida e vai declarar a insolvência num espaço de tempo curto. Aliás, não tem outra hipótese já que não produz nem vai produzir nada com medidas que destroem o parco emprego ainda existente.

A segunda parte da história é que a Europa é bem capaz de se desagregar, pelo menos, como dizíamos há uns tempos atrás, a actual configuração da União Europeia não deverá resistir ao que sucederá a seguir. Mais uma vez, importantes responsáveis políticos alemães já anteciparam e incorporaram esse cenário.

Como fica Portugal?
Muito mal. Aliás, todos os sinais demonstram já que o dito programa de ajuda externa não está a dar os resultados esperados e que, em breve, conheceremos o nosso futuro. Bastará acompanhar, com atenção, o que vai sucedendo na Grécia para percebermos o que nos espera. Mas a história não termina aqui.

Há uma terceira parte e uma quarta parte e, provavelmente, muitas outras partes ainda antes que o filme termine.

Na Grécia, a violência contra os representantes do poder económico e político, e, em larga medida, contra os opressores, já se manifestou: surgiram cartazes, nas manifestações, apelando ao assassínio dos banqueiros, várias esquadras de polícia foram incendiadas, as lojas outlet de grandes marcas multinacionais foram vandalizadas e incendiadas, repartições das finanças arderam, assim como bancos.
Dir-se-ia - pelo menos foi essa a explicação oficial, foi um grupo de anarquistas violentos, porém as imagens controladas da televisão portuguesa mostraram o queimar da bandeira alemã.

Os relatos que chegam directamente da Grécia assinalam a intensificação da repressão da população por parte das forças policiais gregas que chegaram a temer que a população ocupasse e incendiasse o parlamento, aonde se discutia a aprovação do famoso segundo pacote de resgate.

A Troika, liderada pelo governo alemão, tem vindo a impor e a exigir condições humilhantes ao povo grego. Fica-se com a ideia que o povo grego padece de um pecado original ou o que se lhe quiser chamar: é preguiçoso, corrupto, indolente, não trabalha, não produz e merece ser castigado, merece que sejam outros a dar-lhes ordens e a reconduzi-los à dita produtividade.
Este aspecto é tanto mais grave quanto sabemos, pela história, que a Alemanha Nazi ocupou a Grécia e que, em nome de uma ideologia de uma pretensa superioridade da raça ariana, dizimou vários milhões de habitantes europeus.

Aquilo que se passa hoje na Grécia deveria fazer-nos reflectir colectivamente sobre o que é a Europa e o que queremos que ela seja no futuro.

Pela minha parte, eu jamais vou aprender a falar alemão!

4.1.12

Terra dos Espantos: Um jardim às moscas

Terra dos Espantos: Um jardim às moscas Um magnífico artigo de opinião que espelha, com clareza, a trágica situação que se vive neste início de ano em Portugal. Não tenho mais nada a acrescentar.

18.11.11

Carta Aberta


Há algum tempo, foi publicada, na revista, Stern uma “carta aberta” de um cidadão alemão, Walter Wuelleenweber, dirigida a “caros gregos”, com um título e sub-título: 

Depois da Alemanha ter tido de salvar os bancos, agora tem de salvar também a Grécia.
Os gregos, que primeiros fizeram alquimias com o euro, agora, em vez de fazerem economias, fazem greves.


Caros gregos,


Desde 1981 pertencemos à mesma família. 
Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, enquanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela per capita de qualquer outro povo da U.E. 
Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo.
Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos.

O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós. 
No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. 
Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo. 

Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a durante anos fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm. Os gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos primeiros conhecimentos da Economia Nacional. Mas, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante!!! 

Na semana seguinte, Stern publicou uma carta aberta de um grego, dirigida a Wuelleenweber:

Caro Walter,

Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não “empregado público” como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas. 

O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!... não vás pensar que por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares. 
Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa. Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs. 

A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes “comissões” aos nossos políticos para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso, que postos no mar, continuam tombados de costas para o ar. 

Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da Eurozona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, da JUSTIÇA e do CORRECTO. 


Estimado Walter,

Passou mais de meio século desde que a 2ª Guerra Mundial terminou. 

QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha deveria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia. Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em: 

1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães por indemnizações, que ficou por pagar da 1ª Guerra Mundial; 

2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA. 

3. Os empréstimos em obrigações que contraíu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação. 

4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoados inteiros, estradas, pontes, linhas férreas, portos, produto do III Reich, e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares, dos quais a Grécia não viu sequer uma nota.

5. As imensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38,960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., etc.). 

6. A tremenda e imensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega. 

Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento-o. 

Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas. 

Amigo Walter: na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as que têm lucros anuais de 6,5 mil milhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei comprar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas problema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixaremos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA. 


Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por ai os vai obrigar a baixar o seu nível de vida, Perder os seus carros de luxo, as suas férias no estrangeiro, as suas excursões sexuais à Tailândia? 

Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes “compatriotas” da Eurozona) pretendem que saíamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde.

Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que jogamos se consumirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc. 

E, finalmente, Walter, devemos “acertar” um outro ponto importante, já que vocês também disso são devedores da Grécia: 

EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM!!! Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nossos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres. 

E EXIJO QUE SEJA AGORA!! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados. 

Cordialmente,

Georgios Psomás

21.10.11

A porta do Inferno já está escancarada

Que a Europa está prestes a colapsar é já um dado adquirido por muitos. Hoje o Financial Times, na edição alemã, já se referia à recuperação do marco enquanto moeda de transacção.A Grécia deverá declarar a insolvência em breve - fala-se em círculos restritos que o haircut deverá andar pelos 70% ou perto disso, e talvez essa seja também a razão pela qual o nosso sector financeiro tem vindo a registar mínimos históricos sucessivos em bolsa - e o dominó que se irá seguir, imediatamente, arrastar-nos-á a todos para o inferno.
Ao mesmo tempo, as imagens que nos chegam do derrube do ditador kadaffi gelam-nos o sangue, tal como também a notícia que a pequena menina chinesa, atropelada por 2 veículos e ignorada por uma série de transeuntes, acabou de falecer.

17.9.11

Colapso em contagem decrescente

A Europa enfrenta actualmente um dos seus maiores desafios: sobreviver com a configuração que lhe conhecemos.
As notícias que nos chegam dessa mesma Europa revelam o quão frágil e precário é o entendimento acerca da manutenção do status quo. Temo bem que estejamos a assistir ao início do colapso de uma certa concepção do mundo que inaugurou auspiciosamente o novo século. O que se irá passar a seguir será, dados os ajustamentos estruturais que inevitavelmente se seguirão, pavoroso, principalmente para uma geração que aprendeu a viver em segurança e com uma certa qualidade de vida minimamente garantida.

O extracto do artigo que cito abaixo está publicado no site de análise político-económica do ZeroHedge.com

Eurozone must be honest: Big haircuts for bond holders, debt limits for all, says Die Zeit (article in German). The drama of saving European banks that hold Greek debt, and the debt of other tottering Eurozone nations, has been going on for a year and a half. Each effort to keep Greece on track follows the familiar script. Politicians promise spending cuts. Greeks demonstrate. E.U. inspectors check things out and leave angry. Germans declare that Greece will not get any relief until it fixes its problems. Then Greece notices that it needs yet more money and threatens to default. Germany nods. And the next installment gets paid.
By now, all hope for a happy ending has dissipated. Greece is suffering from a multitude of problems that defy quick fixes, among them a huge pile of debt, an inept and corrupt fiscal system where taxes are simply not collected, dysfunctional institutions, and a government-dominated economy. Even unlimited amounts of money can only defer the end game.
But there are already victims. The most recent one: The concept of an independent, apolitical central bank whose primary purpose is guarding the value of the currency, rather than monetizing the debt of countries that have spent beyond their means.

Wolf Richter - www.testosteronepit.com

10.9.11

11 de Setembro


O dia 11 de Setembro ficou, infelizmente, marcado na nossa memória colectiva pelas piores razões. O dia da barbárie. O dia da matança indiscriminada. O dia do ódio. A morte, o pânico, a destruição. Se o século XX foi marcado por duas guerras mundiais e mais não sei quantos conflitos regionais, o novo século, infelizmente, já tem essa chancela inaugural.

Hoje, somos todos americanos.