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11.12.09

Literatura digital

A todos os que se interessam pela cultura e pela literacia digital, aqui fica um link deveras interessante: Digital Literature Web.

7.11.09

Acabei de ler A Perfect Waiter, de Alain Claude Sulzer. Emocionei-me.
Gostei da história pela sua simplicidade, mas também pelo contexto em que ocorre. No fundo, é a história de um empregado de mesa de um hotel suíço, que vive uma vida insignificante e monótona, mas que se apaixona perdidamente e que, mesmo traído, continuará a amar com paixão e intensidade. Esta é, porém, uma história com um final triste. Ernest jamais recuperará Jakob, precisamente porque o sentimento de um não era entendido como tal pelo outro.
Todavia é uma história muitíssimo bem escrita, que se lê com voracidade e que joga com planos temporais distintos: os anos 30, nas vésperas da II Guerra Mundial, e 30 anos mais tarde, a percepção madura (e, em larga medida, saudosa) desse grande amor.
O que retirei dessa narrativa e que me tocou mais: a necessidade de, em tempo útil, aprender a comunicar as emoções e a dizê-las explicitamente.
Uma boa sugestão para os presentes de Natal que se aproximam!

12.9.09

É a arte, estúpido!

Cada vez mais este país me deixa estupefacto! Não sei se ria, se chore. A vontade é de dar uma gargalhada estrondosa, para com ela procurar abalar um pouco as mentes empernidas, mas o facto é que, cada vez mais, me sinto muitíssimo bem junto de outros povos, com um horizonte cultural bem mais aberto do que o nosso.
Lendo o jornal Público, deparo-me com uma notícia insólita: o trabalho artístico da designer Catarina Pestana teve que ser retirado da exposição ExperimentaDesign2009 porque continha, imagine-se, um vibrador...
Mas que raio se passa neste país?
Será que continuamos com a mentalidade que, em 1917, obrigou Marcel Duchamp a retirar da Exposição de Artistas Independentes a sua hoje famosa obra de arte, intitulada La Fontaine, e assinada com o pseudónimo R. Mutt?
Censurar as manifestações artísticas? Porquê? Com que autoridade? A que propósito? Cercear a criatividade e a afirmação de outras formas de dizer o mundo? Porquê?
Mas será que ninguém aprendeu nada com as vanguardas artísticas?

10.4.09

Mas porque é que, nesta cidade, há tanta gente assim?...

Hoje, à tarde, vinha eu a caminho do parque de estacionamento, para recuperar a minha viatura e regressar a casa, quando oiço uma progenitora, dirigindo-se à filhita, num volume consideravelmente elevado e brindando-a com um conjunto de epítetos que me fizeram estacar. Fiquei verdadeiramente surpreendido. Ainda julguei não estar a ouvir bem. Poderia ser o som do vento, porque ventava muito e o frio enregelava-me as orelhas. Mas eis que, de súbito, a progenitora, uma mulher na casa dos 30 anos, bem arranjada, com umas calças de ganga justas, botas de cano alto, e um casaco colado ao corpo, cuja silhueta se reconhecia muito bem, volta a presentear a miúdita com um FO**-SE! Mexe-me essas pernas, GRANDE FILHA DA ****!
Estarreci.
Juro que não queria acreditar!!!!!
A cachopa ia-a acompanhando e não retorquiu qualquer palavra.
Acabaram por se afastar e sairam da minha vista.
Recordei então, uma ocasião em que um Amigo me veio visitar e, confrontado com uma situação similar, me chamou a atenção, inquirindo-me se se passaria alguma coisa com as traseuntes que, com mimos tão inusitados, se tratavam entre si. Na altura, respondi-lhe que já estava habituado a esse discurso. Olhou-me boquiaberto.
Mas, desta vez, fui eu que fiquei profundamente perturbado com o linguarajar daquela criatura. Que aparentemente seria mãe, madrasta ou teria algum tipo de vínculo com a criança em questão.
Entretanto, dirigi-me ao parque de estacionamento, para retirar a viatura. E aí recordei uma outra situação, ocorrida há cerca de 20 anos atrás, numa ocasião em que eu, procurando adquirir uma mobília para a instalação de uma cozinha, me dirigi, repetidas vezes, a um mesmo estabelecimento comercial. Era sempre atendido pela mesma vendedora: uma moça jovem, na casa dos 28-30 anos, bonitinha de corpo e de cara, mas que faria muito melhor negócio se só recorresse à linguagem gestual. É que ela, apesar de eu me fazer acompanhar de uma amiga, acabava sempre por orientar a conversa acerca do custo da mobília para assuntos de natureza pessoal que me perturbavam particularmente (e que faziam rir às gargalhadas a minha amiga).
Passo a explicar a situação: depois da 1ª visita ao estabelecimento, conversa para aqui, conversa para ali, ela disse-me que me conhecia. Ora eu, que tenho uma excelente memória visual (infelizmente, o mesmo não pode ser dito da memória dos nomes das pessoas), não me recordava nada da dita senhora. Mas ela disse-me de onde me conhecia: sabe, o senhor é cliente da loja onde trabalha o meu marido. O meu marido é o C....., da loja X, onde o senhor compra os fatos! Ah..., respondi eu. Já tinha identificado o marido: um rapaz. muito simpático, na casa dos 3o anos. Pois sim, já estou a ver.... 
Bom, como a compra do mobiliário só se efectuou depois de pesadas negociações com o patrão dela (na altura eu contava mais os tostões, até porque só estava a trabalhar há um ano), a senhora, por razões que ainda hoje eu não consigo descortinar, acabava sempre por me confessar, entre uma pergunta acerca da qualidade do material e outra acerca da inclusão ou não do IVA no valor final, que qualquer dia colocaria os pirulitos ao marido! Era assim mesmo, com estas palavras!
A minha amiga, quando pressentia que a louca estaria prestes a atacar, piscava-me o olho e perguntava-lhe sempre a mesma coisa: olhe, e quantas crianças é que estão a pensar em vir a ter? Três ou quatro?
Eu, pela minha parte, tocando na madeira (3 vezes!), respondia-lhe sempre o mesmo:
- Ai sim?!??? Olhe, e esta mobília? Custa quanto?...

21.9.08

Quotidianos V

Philip West
O anzol, 1977

Óleo sobre tela

99,5 x 65 cm

Ex-colecção Cruzeiro Seixas, doação Eng. João Meireles, colecção Fundação Cupertino de Miranda

Mayanna von Ledebur
A preocupação pelo estado de saúde de um amigo. As notícias acerca do seu estado. A leitura ansiosa dos jornais. A busca, com olhar clínico, de ofertas de emprego numa área específica do saber e da acção. A alegria por ir encontrando algumas coisas. Sempre são alternativas, mas o ambiente económico está, infelizmente, muito degradado. Todavia, há-de-se encontrar aquilo que se deseja. O importante é nunca cruzar os braços. É acreditar. E lutar por aquilo em que se acredita. Com veemência. Com fé. Com entusiasmo. Com alegria. Com vontade de vencer.
No fundo, procurando sempre, nos acasos do quotidiano, a Poesia que nos permite olhar o real e sonhar. E acreditar que, pela imaginação, pelo sonho, a Poesia é possível. Visita minunciosa à exposição sobre o Surrealismo, na Fundação Cupertino de Miranda. Redescobrir, nas palavras do comissário da exposição, toda a Poesia que guia a Vida. A provocação. As origens. O pensamento mágico. O acaso. O jogo. O delírio. A arte e a recusa das convenções estéticas vigentes. Aprender com quem sabe e ter gosto nessa aprendizagem. Banho cultural intenso, prolongado, no dia seguinte, por uma visita solitária ao Blindspot, de Mayanna von Ledebur, no Museu da Imagem. Olhar o corpo humano de uma outra forma. Vivenciar o alheamento. A dor. A solidão. Mas também a imaginação  e o campo de possibilidades que o corpo potencia.

23.8.08

Redescobrir Lisboa

Torre de Belém em 1912 (generosa oferta do Pinguim!)
Torre de Belém em Agosto de 2008 (muitos agradecimentos ao Amigo Hydra, pela feliz lembrança)
Frente ribeirinha do Tejo no passado (registada graças ao amigo Pinguim!) Frente ribeirinha do Tejo, em Agosto de 2008, a partir da soberba vista do alto do Padrão dos Descobrimentos. Mosteiro dos Jerónimos - 1878 (Obrigado Pinguim, pela gentil partilha!)
Mosteiro dos Jerónimos - 2008

22.8.08

Uma tarde no museu

Quase todas as obras, cujas fotografias aqui se apresentam, pertencem a autores famosos de renome internacional e encontram-se expostas, com pompa e circunstância, num conhecido museu da cidade de Lisboa: o Museu Berardo, no Centro Cultural de Belém. A última fotografia da obra exposta intitula-se "O visitante em busca de uma imagem" e é, sem dúvida, uma das minhas preferidas (private joke).

18.8.08

Leituras em férias

Margherita OGGERO (2008) La Colega Tatuada. Barcelona: Roca Editorial de Libros. ISBN: 978-84-92429-33-2
"En un mundo desquiciado, de relaciones explosivas y cotilleos gratuitos, los perros - y, en menor medida, los gatos - constituyen un reconfortante valor seguro. Los perros pueden tener pulgas, pero no te buscan las cosquillas diciéndote que si las suyas son más grandes y hermosas que las tuyas: se rascan y basta. Los perros te reciben meneando el rabo aunque pases de lo políticamente correcto, la autoayuda te parezca una capullada o aunque te niegues a mezclarte con los que llaman a los bedeles funcionarios escolares, a los celadores funcionarios de prisiones, a los hospitales instalaciones sanitarias, etcétera. Los perros no hablan, no escriben, no conceden entrevistas a la televisión - de momento - y por eso mismo son un valor seguro." (p.14).
Esta é uma curiosa e agradável leitura para este mês de Agosto, que recomendo vivamente.
Para além das considerações sempre pertinentes e aguçadas sobre o mundo, os homens, as mulheres e as relações humanas em geral, esta obra, muito ao estilo policial, diverte e educa, como diriam os antigos. Basicamente trata-se da história de uma professora de literatura, na casa dos 40 anos, que decide investigar, por sua conta e risco, o assassinato de uma colega de profissão. E a sua investigação levá-la-á a reequacionar a sua relação matrimonial e o seu modo de ver e de olhar o mundo. 
A não perder!

5.8.08

Insólitos Tugas (2)

Serve o presente post para congratular a acção do senhor comandante da zona marítima do Algarve que, num primeiro momento, em nome da moralidade e dos bons costumes, proibiu a realização de massagens nas praias algarvias, e, mais recentemente, voltou a proibir a distribuição gratuita de maçãs nas ditas praias. Ainda que o comunicado emanado da Marinha tenha o seu quê de bizarro – parece-nos que o Ministério da Defesa não dialoga com o Ministério da Saúde e as políticas definidas por um não são compatíveis com as políticas definidas por outro, como se pertencessem a mundos ou a planetas diferentes… – , a verdade, a nosso ver, é uma outra, bem mais interessante, sob o ponto de vista cultural: é que essa proibição só pode ter que ver com uma reminiscência do pecado original. Se não vejamos: se no Paraíso não existissem maçãs, o homem não teria pecado! Ora, considerando-se esta um fruto interdito nas praias portuguesas (e igualmente toda uma dimensão erótico-simbólica que com ela é associada), resolve-se o pecado e garante-se, ao cidadão português, a possibilidade de ir descansadamente a uma praia, situada no sul do país, sem correr o risco de alguém o fazer cair em tentação! Jamais um homem voltará a engolir aquela malfadada maçã que ditou a sua expulsão do Paraíso! Parabéns, por conseguinte, ao senhor comandante e à sua Brigada Da Moralidade e dos Bons Costumes!

1.8.08

Insólitos Tugas (1)

Não quis acreditar naquilo que li. Aliás, pareceu-me de tal modo inverosímil que atribui a notícia a uma qualquer construção ficcional destinada a ocupar tempo e espaço, num momento em que, usualmente, as notícias escasseiam. Dito de outro modo, uma tal notícia só poderia ser fruto de uma mente delirante, por forma a não falar daquilo que realmente importa.
Mas, de facto, a notícia era verdadeira. Ou, pelo menos, foi possível confirmá-la em várias fontes noticiosas independentes.
Fiquei boquiaberto, perante o nível de cultura de algum do nosso povo. E da facilidade com que, fazendo juízos de valor (o falecido Cesariny dizia que o diabo só podia ser português dada a má-língua e a maledicência que nos caracteriza, enquanto povo!), se passa à acção. É tudo aos tiros! E com base numa discriminação que lembra, em muito, aquilo que se passa em algumas das sociedades não ocidentais, em que os direitos mais elementares são negados aos que não pensam ou não agem da mesma forma que determinados detentores do poder.
E isto, temos que convir, é profundamente assustador. Porque, amanhã, nenhum de nós está livre de levar um tiro, por parte de um vizinho, que tenha uma determinada ideia pré-concebida acerca de alguém.
Qual é a solução?
Quando qualquer gato fugir para o telhado ou para uma árvore, deixá-lo ir. Quem for o dono ou a dona, que se amanhe…
(Já agora, uma pergunta: porque razão terá o gato fugido da casa do dono? Porque razão só aceitou regressar quando salvo pelos vizinhos?)

31.7.08

Um pouco de António Maria Lisboa...

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças - Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.
(,,,)
Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
- constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.
E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
- são da máxima importância as Velhas Concepções pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.
Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos.
António Maria Lisboa - Poesia

1.6.08

Mensagem para todos quantos educam criancinhas e se preocupam com o seu futuro

O que é importante na formação das gerações mais jovens? Dar-lhes uma sólida formação num certo domínio especializado? Torná-las aptas a dialogarem com outros povos, outras culturas e outras línguas? Garantir que, sabendo exprimir-se, com desenvoltura, na sua língua consigam ser empreendedores, potencializando a produtividade do país? Nã, nada disso! Puro engano! O espectáculo com que os vários canais de televisão, de sinal aberto, nos brindaram hoje, ao longo do dia, com os directos, a orgia do panegírico, os "heróis", os "craques", a "raça", e outros epítetos do género, a recepção, pelo mais alto dignitário do estado, as multidões uivantes, mostram-nos, até à saciedade, que o importante é ensinar as criancinhas a chutar uma bola, a falar pouco e com uns grunhidos, e saber fazer uns passes, e chega! Não vale a pena mais nada! É suficiente, é engrandecedor, é um feito notável! Além disso, garante a tão desejada empregabilidade, que os nossos políticos tanto apregoam. E se os jovens não conseguirem alcançar o sucesso pode-se sempre reclamar que a culpa foi do árbitro! E se esta desculpa não for aceite, pode-se, aí sim, afirmar, com um ar muito sério, que os jovens têm poucas qualificações...

11.5.08

Série Lisboa

A Poesia pode ser encontrada no real quotidiano, como dizia o Cesariny. Basta que o nosso olhar assim o queira.

Apresento aqui dois estudos de uma série que homenageia a grande cidade e os homens que nela habitam.

Praça do Saldanha, 2008

Da minha janela, 2008

2.5.08

“Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar”
Mário Cesariny (1999) Pena capital. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 35-36
"(…)
Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por completo
os grandes nomes opacos que hoje damos às coisas
Haverá
um acordar”
Mário Cesariny (1999) Pena capital. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 51-52
Hoje o estado de espírito do vosso kapitão só pode ser adequadamente compreendido à luz das sábias palavras do poeta-gato do surrealismo, Mário Cesariny.
O vosso kapitão gostaria muito de expressar o que lhe vai na alma, mas a tal não está autorizado, primeiro porque essa questão do conhecimento da alma tem muito que se lhe diga, e não se faz em meia dúzia de linhas, e em segundo lugar, porque entre o que lá lhe vai e o que os espíritos bem pensantes gostariam de ouvir pode criar-se uma distância do tamanho de um oceano, e todos sabemos muito bem, alguns até por experiência própria, os efeitos nefastos e devastadores que as águas oceânicas podem ter quando decidem irromper pela terra adentro.
Assim, resta-lhe a Poesia.

19.3.08

O jardim à beira-mar plantado...

Sei que é suposto sermos patriotas e amarmos muito a terra que nos viu nascer, mas como eu não nasci por aqui e sempre fui / sou um bocado kaótico, e isto para me apresentar como politicamente correcto, passo a enumerar um conjunto de comportamentos dos indígenas, meus conterrâneos, que me deixam profundamente irritado:
- Cuspir e escarrar para o chão.
- Proferir, enquanto autênticas "muletas linguísticas", um vernáculo de fazer corar qualquer um (a situação torna-se tão mais desgraçada quando os falantes ainda não atingiram a maioridade e, sendo do sexo feminino, não têm qualquer pejo em se referir à anatonomia humana, com mimos e atributos que me deixam sempre em estado de choque... E olhem que eu sou 84% open minded!!!!).
- Não respeitar a fila onde quer que se esteja.
- Fazer questão de deitar, para o chão, os papéis, quando a papeleira está ali à beira.
- Bater a porta na cara de qualquer pessoa.
- Quando, por educação, se segura a porta, tratarem-nos como empregados, entrando 10 ou mais pessoas e ficando nós ali, segurando sempre; e nem um agradecimento, sempre um olhar superior, porque, aos pobres, não se dá confiança! Juro que, qualquer dia, no final, vou pedir uma moedinha!
- Qual enxame, sermos sempre perseguidos por "arrumadores" aonde quer que tentemos estacionar o carrito ou paremos num semáforo.
- Cuscar a vida alheia sempre, sempre e sempre. Acho que estes indígenas devem trabalhar para algum serviço de informações dado o conhecimento e os pormenores que parecem conhecer da vida dos outros. Às vezes, divirto-me imenso com isto, dado ficar conhecer coisas que, eu próprio, desconhecia acerca da minha própria vida!!! Mas mantenho um ar sério e nunca esclareço ou clarifico coisa alguma... há que alimentar o showbusiness!!!!

1.1.08

Ainda sobre o nosso desenvolvimento cultural...

A entrada em vigor da nova lei que proíbe o consumo de tabaco em locais públicos fechados parece-me uma excelente ideia e uma medida corajosa e acertada.
Fiquei estarrecido com algumas respostas de fumadores a questões colocadas pelos jornalistas, na véspera da entrada em vigor da nova lei:
"Sim, vou continuar a fumar e considero uma descriminação não o poder continuar a fazer à mesa do restaurante!"
Pois é, está provado cientificamente que o tabaco mata e o povo continua na sua teimosia cega, prejudicando-se (é um direito individual, dirão alguns!), e, mais do que isso, prejudicando, com o seu egoismo, os outros, que têm que respirar o mesmo ar...
Parece-me que estas opiniões insensatas não estão muito longe da falta de civismo que se nota em muitos dos condutores portugueses, ou da falta de respeito mínimo com que muitos se tratam nos mais variados espaços.
Dirão alguns: é a especificidade do povo português!
Espero bem que seja um fenómeno passageiro e que o país MUDE e se desenvolva culturalmente, pois é, por aí, que a mudança das mentalidades (e toda a aceitação do outro que não tem que ser necessariamente igual a mim) pode ter lugar!
Um Bom Ano para todos!

Para que precisamos de um canal público de televisão?

O programa da passagem de ano de 2007-2008 foi absolutamente fascinante nos vários canais televisivos de sinal aberto.
Os canais privados brindaram-nos com concursos televisivos nos quais tivemos de aguentar um conjunto de aprendizes de cantores de 4ª categoria, com muita canção de gosto duvidoso. O que foi salvando a noite foi a possibilidade de ir fazendo zapping. Mas a pérola ficou reservada para o canal estatal: se a aposta na equipa do Gato Fedorento prometia alguma acção, a opção por um remake do reveillon de 1984-85 (?!???), com piadas desgastadas e tótós, deixa-nos um grande desconforto. Parece que, definitivamente, batemos no fundo!
(Salvou-se a RTP 2, com um filme, que deixou de lado a própria noção da passagem).
Se os canais televisivos podem ser considerados uma boa caixa de ressonância do estado de um país e do nível do seu desenvolvimento cultural, o novo ano só mostra que há ainda um longo caminho a percorrer...
E a questão coloca-se: para que precisamos de um canal público de televisão que é igual, no pior sentido, à concorrência privada?

26.12.07

Pequeno livro do grande terramoto: a história da árvore torta

Era uma vez um gato maltês, cagou-te nas barbas e não soube o que fez.
Não, não é é este o começo da minha história!
Ora, vamos lá:
Era uma vez uma árvore que nasceu torta. Era uma árvore grande e frondosa, aonde os pássaros gostavam de repousar as suas asas, mas que, por ignota determinação cósmica, prosseguia outra direcção que não aquela colectivamente definida. O Sol e a Lua conversavam frequentemente com ela, tal como a Manhã e o Tempo, mas a princesa do reino não gostava nada dela. Observava-a sempre à distância e dizia que lhe causava náuseas só de a olhar. Os homens sábios acompanhavam a opinião da princesa e argumentavam que a árvore poderia ser prenúncio de males demoníacos a abraçarem o reino, num futuro não muito distante.
A princesa pediu ao pai para mandar derrubar a árvore.
Chegaram então os lenhadores com as suas serras e machados, prontos a transformar esse objecto em algo de útil: a madeira poderia ser aproveitada para aquecer os lares nas noites frias de inverno e o seu espaço, uma vez libertado dessa praga, poderia permitir plantar flores e árvores, essas sim geometricamente ideais e adequadamente prependiculares relativamente ao chão.
Cravaram os seus machados no tronco da sequóia, mas a árvore não se mexeu. Mandaram vir mais lenhadores com outros machados, mas a árvore continuava a olhar o céu. Abraçaram-na e tentaram abaná-la com a força dos seus músculos, mas a árvore permanecia incólume. Lançaram-lhe pedras, algumas de grande porte, insultaram-na com palavras duras e pontiagudas, cuspiram-lhe, mas a árvore continuava a sê-lo. Tentaram então pôr a descoberto as suas raízes, para a asfixiarem, mas elas pareciam ir muito mais fundo que o buraco mais fundo do reino e atravessar todo o planeta até ao outro lado do mundo.
Então, um rapazinho, que ia a passar, comentou que achava a árvore muita bonita e agradável e que era uma pena derrubá-la, ainda mais porque se localizava numa colina onde era hábito reunir-se com outros meninos e outras meninas para, dando as mãos, comungarem todos os sonhos da esperança. Um homem idoso recordou as suas memórias passadas e acenou afirmativamente com a cabeça.
O geógrafo do Rei mandou vir os instrumentos de observação, as bússolas, os microscópios, as lentes, as lupas, os bisturis, o guarda-chuva e a mesa de operações e efectuou cálculos inusitados. Concluiu então que a árvore fazia um ângulo recto relativamente ao chão em que, por ignota determinação cósmica, tinha nascido, e que só era percebida como torta porque o terreno possuia uma leve inclinação.
A princesa olhou e reparou nesse quadro e, desde então, passou a considerá-lo o mais belo dos que fazem parte da sua colecção privada de obras-primas e, secretamente, povoam as paredes do seu quarto.
Assim termina a história da árvore torta.