Tenho vindo a convencer-me que, de facto, vivo sob uma maldição qualquer, lançada por uma bruxa ou por um bruxo, sei lá, qualquer um deles terrivelmente malvados…
Passo a explicar as minhas razões para um tal sentimento.
Quando encetei uma viagem ao Portugal profundo – sim, porque, embora eu seja um kapitão de alto mar, por vezes, também tenho que viajar em terra! - , e dadas as minhas más experiências com essas modernices dos aparelhos GPS, fi-lo seguindo estritamente as placas indicativas. Funcionou, sim! Cheguei às portas de uma cidadezinha, situada nas entranhas do Portugal profundo.
Julgava eu que me seria fácil solicitar informações para encontrar o hotel onde iria repousar. Má ideia! Ninguém, a quem inquiri, parecia conhecer esse hotel, quanto mais o nome da rua aonde estava situado. Mas gentilmente, sugeriam-me outros locais potenciais para pernoitar…
Assim, embora a contragosto, lá tive eu que activar o dito GPS: má hora em que o fiz, pois não só não encontrei o hotel, como, quando reparei, já estava prestes a atravessar a fronteira e a começar a conhecer a Espanha profunda! E o maldito do aparelho, com uma voz metálica, lá me continuava a incentivar a seguir a estrada por 66 quilómetros…Definitivamente, esse não era o meu dia! Desisti. Gritei, feito doido, no português vernáculo!!! E não é que, já na fronteira, uma alma caridosa, ouvindo vocábulos da sua língua, da sua tão amada língua, se dirige a mim e me questiona a razão de uma tão elevada concentração de termos tão pouco técnicos?!? Lá me indicou o local exacto do dito hotelzinho e lá consegui chegar para o merecido descanso…
Ainda pensei em ir conhecer as redondezas e registar o momento em interessantes fotos, para mais tarde recordar, mas estava tão cansado e ainda tinha que preparar a reunião que a nossa multinacional ia realizar no dia seguinte que lá tive que ficar fechado no quarto a trabalhar…
No dia seguinte, o dia da reunião com os empresários locais, eu que pensava que tudo já estaria a andar sobre rodas, venho a deparar-me com uma nova situação verdadeiramente insólita: o meu carrito, qual génio muito senhor do seu nariz, recusou-se a activar o alarme e a trancar as portas, para meu grande desespero! Mais, dizia-me com a língua de fora, que eu não era quem julgava ser e que não me reconhecia como dono!... Ainda argumentei que ele era o meu único amor, a paixão da minha vida, mas o tipo começou a ficar irado e a ameaçar disparar a buzina e os sinais de luzes… Eu fiquei siderado… Então não é que aquela coisa parecia ter ganhado vida?!? Não me obedecia e ainda me ameaçava!!!! Fiquei a pensar que ele e a menina do GPS deviam estar feitos um com o outro e que ambos conspiravam para me arrasar!...
E assim foi: lá fui ter com os empresários locais, deixando o carrito, com as portas destrancadas, estacionado no centro da cidade, numa rua bem movimentada.
Já podem imaginar o quão bem me correu a reunião de trabalho…
Bom, para terminar o dia em beleza, estando eu de regresso a minha casa, e tendo necessidade de aparcar o carrito numa garagem alugada, que, por sinal, se encontrava ocupada por um outro carrito, deparo-me com uma situação inusitada: quando liguei a chave da ignição, o carrito estava morto. Nem um rugidozinho, nada, absolutamente nada…. A ***a da bateria tinha ido à vida!
Lá tive eu que ligar para a Marta da assistência em viagem, mas, ao contrário do que diz a publicidade, saiu-me um Marto, o qual me ia explicando que a assistência em viagem implica viajar e não ter um carrito parado à porta de casa e que, neste caso, era preferível eu contactar directamente uma oficina minha conhecida…
Agradeci ao Marto, ou lá como é que o mocito se chamava e desliguei.
Consegui deitar-me a dormir pelas 22h30, depois de telefonemas, deslocações, gastos e irritação, q.b.
Pois então, digam-me: não acham que eu transporto comigo mesmo uma maldição?
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