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29.6.10

Dos papagaios e da selva que começa a despontar...

A propósito de uma certa onda que, acriticamente, parece começar a ganhar algum ímpeto - veiculando ou, em rigor, procurando vender a ideia de que só com a redução dos salários é que as contas públicas poderão ser recuperadas - , deixo-vos um curioso artigo de opinião de Paul Krugman, publicado no jornal brasileiro Estadão.
Num dos blogues que leio, com regularidade, já me insurgi contra esta ideia e volto a fazê-lo, explicando porquê: com o nível de endividamento com que as populações se encontram qualquer redução salarial, para além de injusta e demagógica, acarretará, com toda a probabilidade, o descalabro financeiro de muitos. É que há contas para pagar e empréstimos para amortizar. Ora, não recebendo ou recebendo menos, o consumo vai reduzir-se e se ainda for possível pagar as contas as coisas ainda não são críticas. Se não for possível, o crédito mal-parado vai aumentar exponencialmente, com consequências imprevisíveis a nível económico e a nível social.
Um dos argumentos habitualmente utilizados é o de que a redução da massa salarial faria reduzir o preço dos produtos. Se esse argumento é, para já não verificável - na Grécia, a redução da massa salarial fez aumentar o preço dos bens transaccionáveis (a inflação já vai nos 4%) - , a perspectiva de uma deflação seria catastrófica. É que todos conhecemos bem o que sucedeu no Japão, esse "tigre asiático" e modelo, durante tantos anos, para Portugal... A redução contínua do preço dos bens transaccionáveis teve/tem como consequência que as famílias, ao invés de consumirem, tenham vindo a adiar as suas aquisições, gerando, com essa decisão (na esperança de comprar o produto cada vez mais barato), um aumento das falências e do desemprego.
Esta é a razão pela qual fico sempre profundamente perturbado quando vejo a facilidade com que certas criaturas facilmente aderem e propagam certas ideias profundamente abaladoras do nosso agir colectivo.
Há 20 anos atrás, um então estudante de Economia e Gestão confidenciava-me que a nossa situação económica só melhoraria se se adoptassem, na contratação colectiva, as mesmas regras que vigoravam no Japão. Intrigado, perguntei-lhe se já alguma vez tinha trabalhado no Japão. Respondeu-me que não, mas que tinha aprendido na instituição onde andava a estudar que o modelo de contratação era óptimo. E passou a explicar-me: são contratados, mas só têm 3 dias de férias por ano: no dia de aniversário e noutros 2 dias que já não consigo recordar (1 seria, possivelmente, no dia da empresa!)
Fiquei boquiaberto perante a falta de inteligência do candidato a gestor que andaria na casa dos 20 anos. E perguntei-lhe: tu aceitarias ser contratatado com essas regras?
Querem saber a resposta?
Pois foi esta: obviamente que não! Isto é para ser aplicado aos trabalhadores da minha empresa! Da empresa que eu vou gerir!
Pois é, perante uma cabecinha desta - e às vezes acho que alguns dos que andam por aí a vender certas ideias poderão ter sido este estudante - já não tenho mais nada a acrescentar.

21.6.10

A caixa de Pandora

A catástrofe ambiental que, neste momento, ocorre nos mares assemelha-se a uma verdadeira caixa de Pandora de proporções ainda não totalmente avaliáveis.
Como será a vida de todos nós num futuro próximo é algo que tenho grandes dificuldades em antever, uma vez que as mais recentes projecções indicam que, caso nada se consiga fazer para travar essa maré negra, dentro de 18 meses, as nossas costas serão, também elas contaminadas.
E não adianta nada pensar que isso é problema dos outros ou que a América está longe. Somos todos cidadãos de uma mesma terra e, da mesma maneira que a falência de um banco nos EUA nos provoca problemas aqui, neste pedaço de terra, também a destruição da vida marinha e da água imprescindível à sobrevivência colectiva nos causará consequências imprevisíveis.
Os homens julgaram-se deuses e agiram como tal.
Agora, à semelhança do episódio bíblico da Torre de Babel, estão desorientados e já não sabem o que fazer.

1.6.10

Ainda sobre a Frota da Liberdade

O artigo, supra citado, vem hoje publicado num jornal australiano, abordando, com lucidez, a problemática do direito à segurança - que Israel e qualquer país civilizado e democrático merece - e os modos de, efectivamente, assegurar essa segurança.
Tenho bons amigos em Israel. Quando me visitaram, vai para 4 anos, o seu pavor chamava-se (e chama-se) Hamas, o grupo terrorista que não reconhece a existência do Estado judaico.
Não são loucos nem tão pouco estão possuídos desta fúria dos dirigentes que, em nome da propaganda, consideram que quem não reverencia o agir das suas elites políticas é terrorista.
Aliás, espanta-me muito que, num país, que tem vivido sempre acossado por numerosas guerras, com toda a facilidade as elites dirigentes rotulem os outros de terroristas e os diabolizem. Claro que compreendemos que tudo isso não passa de uma máquina de propaganda interna. Mas, também em Israel, há gente inteligente e não louca.
Esperemos que o bom senso prevaleça ou, caso contrário, o circo corre o risco de pegar fogo. E isso é algo que ninguém deseja.