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30.5.08

Nas lógicas organizacionais, lideranças frágeis conduzem, normalmente, a situações catastróficas no mínimo ou a situações apocalípticas, podendo arrastar toda uma empresa para a falência.
Incapazes de perceber o funcionamento da empresa e as suas mais-valias e de a rentabilizar, sob os pontos de vista económico, social e motivacional, estas lideranças tendem a cumprir os objectivos da própria agenda, não acautelando os interesses do grupo ou da lógica organizacional que é suposto representarem. Mais: incapazes de clarificarem as orientações estratégicas da empresa ou sequer de transparentemente identificarem as mais-valias e as menos-valias da organização, tendem a assumir o papel de vítimas e de remeter para entidades abstractas ou outras a responsabilidade pelos actos de má-gestão.
O futuro afigura-se perturbador.

25.5.08

É extraordinária a forma como vemos e vivenciamos os lugares.
Dois lugares ocupam um lugar importante na minha vida: as cidades de Porto e de Lisboa.
Da primeira, recordo a emoção que sentia quando a visitava e percorria as suas ruas e lugares. Era uma espécie de experiência iniciática que eu repetia a cada visita, percorrendo os mesmos caminhos, deliciando-me com os mesmos lugares, que eu já conhecia de tantas vezes lá ter ido. Perdeu todo o encanto quando o meu Amigo partiu.
Relembro-me como se fosse hoje. Foi num dia vigésimo quinto, numa tarde chuvosa e carregada que recebi o telefonema da família. Lembro-me de ter percorrido os mesmos caminhos, os mesmos lugares e de ter reparado nas árvores, nas pessoas, no céu, nas gaivotas e de me ter sentido um estranho. Estranho porque incapaz de vivenciar as emoções felizes do tempo em que me sentia acolhido nessa bela cidade.
Ainda hoje, e já lá vão vários anos, não voltei a experimentar a mesma emoção que sentia antigamente. Ficou a saudade e essa não tem cura.
Da segunda, vejo-a novamente como um local de trabalho. Se ela foi para mim sempre sinónimo de preocupação profissional, a partir de certa altura, ela passou a ser vivenciada como um local profundamente aprazível e fruitivo. Com a ajuda certa, pude redescobrir a grande cidade, os seus jardins, as suas praças, os locais onde a vista se espraia e a alma descansa. A cidade passou a ter, para mim, o encanto da experiência iniciática já vivenciada noutro local e noutra época.

24.5.08

Hoje sinto-me assim

Chove torrencialmente, mas começo a sentir, verdadeiramente, uma grande alegria por estar em fim-de-semana!

18.5.08

Para onde vamos?

Dirão os meus caros Amigos que estou um bocadinho ácido. Se tal pode ser explicado por razões de saúde, também é verdade que aquilo que nos é dado a ver confirma, em muito, os nossos prognósticos muito reservados relativos à situação do reino.
Vêm estas considerações a propósito de uma visita, que acabei de efectuar, a uma importante feira de mobiliário dos grandes produtores do reino.
Se a ausência de oferta foi claramente notada, outro facto é digno de nota: a dimensão exagerada dos móveis e dos sofás associada a uma certa tendência para um estilo que, não querendo parecer deselegante, classificaria do tipo novo-rico.
E aqui chegamos ao meu espírito crítico: o que eu me questiono é saber até que ponto os nossos empresários possuem realmente uma visão estratégica para criar riqueza? Se os móveis, que estão patentes, não permitem mobilar uma casa – os apartamentos, como todos sabemos, são de dimensões cada vez mais exíguas – , para que estarão eles expostos? E para que serão eles produzidos? E para quem? Quem os comprará? A geração dos pais de família, bem na vida, que vive em faustosas casas senhoriais? Será que esses necessitam de mobilar uma casa? Os jovens, que mal vão sobrevivendo?
Temo bem que todas aquelas empresas, que empregam largas centenas de trabalhadores, venham a encerrar as portas dentro de pouco tempo. E essa será mais uma desgraça neste reino, que todos nós amamos.

16.5.08

Onde vivemos? E em que ano?

Tenho uma dúvida que gostaria de ver esclarecida. Por que razão, neste país, são poucas as coisas que funcionam realmente bem?
Situação 1)
Por exemplo, já imaginaram a dificuldade que pode um cidadão sentir se desejar encomendar, via telefone, uma pizza?
Empresa: uma multinacional a operar em Portugal, com o serviço de take-away.
Chamada telefónica não gratuita, a acrescentar ao preço da pizza, que, por si, já não é barata.
Empresa: - Qual é o menu que deseja?
Kapitão: - Olhe, eu não tenho a publicidade aqui, mas vi a informação na net e gostaria de encomendar uma pizza, para me trazerem a casa.
Empresa: - Claro que sim. Dê-me os seus dados.
Kapitão: - ………………………………………..
Empresa: - E qual é a pizza?
Kapitão: - Quais são as pizzas que têm?
Empresa: - Ora, isso está no folheto.
Kapitão: - Pois, mas eu já lhe disse que não recebo os folhetos de publicidade. Olhe queria uma pizza do mar….
Empresa: - Não temos pizzas com esse nome…
Kapitão: - Oiça, eu quero uma pizza que leve marisco, frutos do mar e…. e o que vocês costumam lá colocar…
Empresa: - Então diga lá os ingredientes para eu tomar nota.
Kapitão: - Oh Senhora, eu não sei quais são os ingredientes que se usam para fazer uma pizza.
Empresa: - Então, se não sabe, como é que vai escolher?
Kapitão: - Vocês não têm nada similar?
Empresa: - Olhe, eu não percebo a língua que o senhor fala.
Kapitão: - Minha senhora, esqueça, já perdi a vontade de comer pizza. Muito obrigado.
Quase 15 minutos ao telefone, a gastar dinheiro, e a não conseguir que me preparassem o jantar…. Mas a publicidade, oh, a publicidade!!!!!
Situação 2)
Posto dos correios. A minha tentativa desesperada para enviar, numa encomenda, dois livros para um país europeu.
Kapitão: - Boa tarde. Queria enviar esta encomenda, por favor.
Funcionária: - Com certeza. (Coloca a encomenda na balança, ergue o sobrolho, esboça um ar de admiração e fita-me carrancuda) Oh! Mas tem mais de 2kgs!!!!
Kapitão: - Desculpe, mas não percebi. Qual é o problema?
Funcionária: - Isto não pode ter mais de 2kgs!
Kapitão: - Como ?!??? Então, como é que exportam coisas para outros países? Não me diga que agora têm que desmontar tudo e enviar em peças pequeninas?!???
A funcionária, reencarnando a pele de um agente sinistro da inquisição ou de alguma polícia política de mau nome, levanta-se, encara-me e fuzila-me com uma questão:

Funcionária: - O que é que isto leva dentro?
Kapitão: - Dois livros (respondo com naturalidade).
A funcionária mira-me durante uns segundos, olha para a encomenda e, qual sibila afirma assertivamente:
Funcionária: - Isto não são livros!
Confesso que comecei a ficar irritado. Quem era aquela criaturazinha para, olhando para uma encomenda, se atrever a afirmar, contra a minha palavra, que o que tinha na frente não eram livros?

Kapitão: - São livros sim, minha senhora.
Funcionária: - Impossível!
Suspirei fundo. Olhei para o relógio. Dez minutos já perdidos. O carro estacionado em 2ª fila, na rua. E aquela idiota a fazer-me perder tempo.

Vai daí, a criatura puxa de uma tesoura e começa a desfazer-me a encomenda.
Kapitão: - Eiiii! O que é isto? Quem é que a senhora se julga?
Funcionária: - Eu tenho que verificar o conteúdo da embalagem.
Kapitão: - Faça favor, verifique tudo ao pormenor. Olhe, já agora, tenha cuidado ao abrir a embalagem, não vá estourar-lhe nas mãos alguma que não esteja à espera!
Qual Madonna irada, encarou-me e rasgou a encomenda. Começou por apalpar o estranho e inusitado objecto. Eu esbocei um largo sorriso e encarei-a. Devagarinho, foi puxando o objecto para fora até sair um belo livro, de cerca de 800 páginas, ficando o outro lá dentro. Nesse momento, inquiri-a:

Kapitão: - Então? O que é que a douta senhora considera que tem nas vossas mãos?
Funcionária: - Isto não é um livro.
Não pude deixar de dar uma sonora gargalhada. Nesse momento, virei-me para trás: a fila já ia até à porta. Deveriam estar lá umas 20 pessoas.
Kapitão: - Ai não?!? Então, o que é?
Funcionária: - Os livros que eu conheço não são assim. São mais finos.
Reparei, nesse momento, que na prateleira se anunciavam os últimos sucessos de um qualquer diário dos Morangos com Açúcar. Irritei-me.

Kapitão: - Minha senhora, já me pude aperceber que o seu conceito de cultura não ultrapasse os limites exíguos da magna e canónica literatura dos Morangos, mas, creia-me, que existe um mundo muito mais vasto do que aquilo que a sua exígua inteligência consegue assimilar e, dado que estou aqui, enquanto cliente, a pagar um serviço, eu exijo que o mesmo seja executado com diligência e educação. E com respeito. Por isso, faça o favor de voltar a colocar o livro dentro da embalagem, feche-a na minha presença e despache-a para o destino. E sem mais demoras!
Nesse momento, apareceu o superior hierárquico que me pediu imensas desculpas pelo sucedido. A encomenda lá foi despachada depois de uma perda de meia hora, uma grande dose de irritação, 25 euros de custo (!!!), e a triste constatação da ineficiência de um serviço que deveria funcionar minimamente.
A questão que eu coloco é tão simplesmente esta: como pode alguém querer investir dinheiro nesta terra quando aquilo que, aparentemente, deveria ser simples não funciona? É assim que caminhamos para aumentar a produtividade?
E já que estamos em maré de colocar questões, será que alguém me explica a razão pela qual não é possível comprar, com 1 ou 2 dias de antecedência, um bilhete para os comboios urbanos, ou sequer comprar esse bilhete numa estação diferente da da viagem? Pode parecer uma questão menor, mas quando, por razões de ligações, só temos 6 minutos (isto se o comboio não atrasar !!!!) para correr de um cais para outro, e ainda temos que ir enfrentar as máquinas para adquirir o bilhete, essa pode ser uma situação totalmente perdida….
Enfim, como dizia um amigo meu, este é o nosso país e temos que aprender a viver nele. Mas que ele é bem caótico, lá isso é.

11.5.08

Série Lisboa

A Poesia pode ser encontrada no real quotidiano, como dizia o Cesariny. Basta que o nosso olhar assim o queira.

Apresento aqui dois estudos de uma série que homenageia a grande cidade e os homens que nela habitam.

Praça do Saldanha, 2008

Da minha janela, 2008

10.5.08

MANIFESTO EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO

(Ao abrigo do disposto nos Artigos n.ºs 52.º da Constituição da República Portuguesa, 247.º a 249.º do Regimento da Assembleia da República, 1.º nº. 1, 2.º n.º 1, 4.º, 5.º 6.º e seguintes, da Lei que regula o exercício do Direito de Petição)
Ex.mo Senhor Presidente da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro de Portugal
1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.
2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado), e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra), lançou-se o chamado Acordo Ortográfico, pretendendo impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura. Reforma não só desnecessária mas perniciosa e de custos financeiros não calculados. Quando o que se impunha era recompor essa herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores da União Europeia.Lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do Prof. Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica. Não há uma instituição única que possa substituir-se a toda esta comunidade, e só ampla discussão pública poderia justificar a aprovação de orientações a sugerir aos povos de língua portuguesa.
3 – O Ministério da Educação, porque organiza os diferentes graus de ensino, adopta programas das matérias, forma os professores, não pode limitar-se a aceitar injunções sem legitimidade, baseadas em “acordos” mais do que contestáveis. Tem de assumir uma posição clara de respeito pelas correntes de pensamento que representam a continuidade de um património de tanto valor e para ele contribuam com o progresso da língua dentro dos padrões da lógica, da instrumentalidade e do bom gosto. Sem delongas deve repor o estudo da literatura portuguesa na sua dignidade formativa.O Ministério da Cultura pode facilitar os encontros de escritores, linguistas, historiadores e outros criadores de cultura, e o trabalho de reflexão crítica e construtiva no sentido da maior eficácia instrumental e do aperfeiçoamento formal.
4 – O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades – não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa.É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes “mudas” – muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.Não faz sentido o carácter facultativo que no texto do Acordo se prevê em numerosos casos, gerando-se a confusão.Convém que se estudem regras claras para a integração das palavras de outras línguas dos PALOP, de Timor e de outras zonas do mundo onde se fala o Português, na grafia da língua portuguesa.A transcrição de palavras de outras línguas e a sua eventual adaptação ao português devem fazer-se segundo as normas científicas internacionais (caso do árabe, por exemplo).
Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa. Para o desenvolvimento civilizacional por que os nossos povos anseiam é imperativa a formação de ampla base cultural (e não apenas a erradicação do analfabetismo), solidamente assente na herança que nos coube e construída segundo as linhas mestras do pensamento científico e dos valores da cidadania.
Os signatários,
(....)
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5.5.08

Instântaneos que deram um certo gáudio (II)

Fiquei pensativo quando li esta máxima desfraldada numa grande bandeirola no centro do mundo. Fiquei pensativo e preocupado. Primeiro, porque a afirmação está escrita em língua portuguesa. Em segundo lugar, porque se encontra numa cidade no centro do mundo português. Em terceiro lugar, porque, não existindo estratégias para a sua ocultação, quem a colocou em destaque pretendia que a máxima fosse lida, reflectida e assimilada. Em quarto lugar, porque, a menos que se trate de um acto paródico e desconstrutor, se calhar, até pode ser verdade...

Instântaneos que deram um certo gáudio

Passeava bem pelas ruas da grande cidade, quando deparo com este graffitti, na parede de um elegante complexo habitacional. Fiquei convencido que esta tinha sido a resposta, preparada por algum anjo que acompanhará invisivelmente os meus passos, ao meu estado de espírito pré-revolução de Maio de 68.
É claro que o vosso kapitão se sentiu imediatamente melhor e, sacando da sua máquina, assumiu imediatamente o papel da personagem repórter sem fronteiras!

2.5.08

“Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar”
Mário Cesariny (1999) Pena capital. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 35-36
"(…)
Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por completo
os grandes nomes opacos que hoje damos às coisas
Haverá
um acordar”
Mário Cesariny (1999) Pena capital. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 51-52
Hoje o estado de espírito do vosso kapitão só pode ser adequadamente compreendido à luz das sábias palavras do poeta-gato do surrealismo, Mário Cesariny.
O vosso kapitão gostaria muito de expressar o que lhe vai na alma, mas a tal não está autorizado, primeiro porque essa questão do conhecimento da alma tem muito que se lhe diga, e não se faz em meia dúzia de linhas, e em segundo lugar, porque entre o que lá lhe vai e o que os espíritos bem pensantes gostariam de ouvir pode criar-se uma distância do tamanho de um oceano, e todos sabemos muito bem, alguns até por experiência própria, os efeitos nefastos e devastadores que as águas oceânicas podem ter quando decidem irromper pela terra adentro.
Assim, resta-lhe a Poesia.