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1.9.08

Intervalo

Acabaram-se as férias que, este ano, foram geridas em termos maioritariamente pessoais. Longe da confusão dos últimos anos. Longe dos horários impostos por alguém cujo rosto eu não conhecia. Longe das rotinas instaladas e que obrigavam, se se quisesse alimentar o estômago, a ter que acordar a determinda hora e a regressar a uma hora que até poderia não se enquadrar nas horas cristãs, mas que obrigava a estar em condições de poder cambalear, no dia seguinte, até uma certa hora, até junto da sala onde se serviam os pequenos-almoços. Longe dos aglomerados populacionais que, qual horda furibunda, mecanicamente se deslocavam para junto da água e, em momentos temporais cronometricamente definidos, regressavam aos seus locais de pousio habitual. Longe da criançada que, jogando à bola, e berrando a plenos pulmões, obrigavam tudo e todos a participar, mesmo que forçadamente, numa alegria que não era a minha. Longe dos stress inumeráveis pelas longas filas de trânsito para atravessar a ponte. Longe da ansiedade por saber aonde iríamos deixar o carro, e, uma vez estacionado, será que ainda estará intacto quando a ele regressarmos? Longe das pessoas que realmente importavam, porque, sendo Agosto, era imperioso fazer a fotossíntese, e activar uma cortina de invisibilidade, só entrecortada, por momentos de interacção telefónica que, feitas as contas, se mostravam absolutamente contínuos, como se a distância e a ausência fossem tão somente físicas, porque o veio discursivo e emocional, esse, era permanente.
Este ano, tudo mudou.
E agora, que as férias se acabaram, e que o ciclo supostamente se repetiria, decidi que tudo será diferente doravante.
Diferente, desde logo, na forma de olhar o mundo.
Diferente, no modo de encontrar as pessoas que realmente importam e pelas quais vale a pena dizer EU, TU, NÓS.
Diferente na forma de me mostrar e de permitir que os outros, aqueles que realmente importam, me conheçam.
Sei que não é habitual efectuar estes balanços de fim de ciclo no dia 1 de Setembro, mas eu nunca fui igual à massa que me rodeia e na qual eu sou um pontinho minúsculo. Tenho clara consciência que defraudo muitas expectativas. E que surpreendo. Às vezes pela positiva. Outras vezes pela negativa. E que sou provocador. E que me dá gozo provocar. E que muitas vezes perco. E que raras vezes ganho.
(Há uns anos atrás, no milénio passado, quando eu era um miúdo de 20 anos - para quem me conhece e para quem não me conhece, informo que, neste momento, tenho mais uns mesitos face à idade anteriormente referida! - , um dia, percorri, vestido com o traje académico de estudante universitário, uma das ruas de uma certa cidade, e tendo-me cruzado com duas senhoras, de idade já avançada, fui brindado com os seguintes epítetos: "É o diabo! Nossa Senhora, valei-nos!!! É o diabo, é o diabo em pessoa! Virgem Santíssima, é o diaboooo!!!!". Estaquei a caminhada e encarei as senhoras. Obedecendo a técnicas que eu vinha aprendendo no meu curso, sobre como controlar grupos e garantir a liderança, tratei de estabelecer contacto ocular com elas. Ficaram lívidas. Mas já não me brindavam com esses epítetos. Não que eu me importasse, mas, enfim, era preciso um bocadinho de lata a mais... Até que uma, puxa de um terço, e começa a gritar, esganiçada, "Vade Retro, demo!" E a proferir não sei que ladaínha, provavelmente para efectuar algum tipo de exorcismo. Aí, irritei-me e, sorrindo-me, disse-lhes: "Sim, sou o diabo. Em pessoa. E as senhoras foram brindadas com a sua vista." Dei uma gargalhada. "Agora, eu ordeno-vos que me saiam da frente e vão imediatamente ter com um representante da vossa religião e lhe digam que me viram, em pessoa e ao vivo, e que eu vos ordenei que fizessem tal coisa!" Ainda pensei em fazer BUUUU!, mas não foi necessário. As criaturas, olhando-me estarrecidas e ofegantes, afastaram-se às arrecuas, bichanando uma para a outra não sei o quê.)

11 comentários:

pinguim disse...

Não sei, não te conheço bem, mas a ideia que tenho de ti é que sempre assim procedse: mostras-te como és; se há pessoas que te vejam como o diabo, o problema é delas, pobres coitadas...
Abração e parabéns pela opção de férias...

Paulo disse...

nós detestamos férias com hordas de pessoas... como coincidem com Agosto, é difícil fugir-lhes, mas tentamos. não sei, mas parece-me que por aqui se pode ler uma mudança, nomeadamente na tua forma de ver as coisas, pensando mais em ti... isso é excelente! para sermos para os outros, temos de o ser primeiro para nós mesmos. a cena levada do diabo é do melhor! coitadas das senhoras! lol


um abraço!

Anónimo disse...

So para deixar um abraco aqui de Pequim :)

Joao

Kapitão Kaus disse...

João:)
Obrigado.
Abraço:)

Paulo:)
Abraço:)

João:)
Obrigado pelo abraço, que, vindo de longe, chegou aqui muito bem e foi muito bem recebido:)
Merci:)))
Façam uma boa viagem de regresso:))

The White Scratcher disse...

O problema é que hoje em dia é muito difícil percebermos quem é diabo e quem não é.
Já a algum tempo apercebi-me de que nunca ou quase conhecemos as pessoas que nos rodeiam,,,, são anjos que de repente viram diabos,,, e aí a coisa complica-se.
Vida nova é o que a maioria de nos precisa.
Abraço

Kapitão Kaus disse...

The white scratcher:)
Obrigado pela visita:)
Concordo contigo. Totalmente!
(No meu caso, eu diria mais que sou um diabo que virou anjo.)
Abraço:)

Kokas disse...

Prefiro Diabos às claras, que a maioria dos Deuses que aí andam...às escuras!

Aqueel abraço!

ψ Psimento ψ disse...

E digo mais! É o Diabo!
Enfim… isto há coisas!
Bem-vindo de volta antes de mais XD
Já vi que as férias foram fantásticas porque as minhas anda estão para vir sabe deus ou o diabo quando! LOL
DE resto, acho que é uma óptima altura para se fazer um balanço! Aliás, é sempre boa altura para se mudar para melhor!!
Quanto ás cenas relatadas, também não tenho paciência. Já não sou muito fã de praia então se me passa uma criança desvairada e me atira areia, está o caldo entornado :p

João disse...

Não conheço as velhotas mas pessoalmente gosto de diabos :).
Pesonagem interessante tu ... :p

Kapitão Kaus disse...

Psimento:)
Obrigado pela visita:)
E boas férias, quando as tiveres!:)

Kapitão Kaus disse...

João:)
Nem imaginas quanto...
Abraço:)