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11.6.09

Para onde caminhamos?

Não tenho filhos. Ainda bem. Se os tivesse estaria agora confrontado com um grande dilema: como educá-los de modo a prepará-los para o futuro? Para a sociedade em que eles viveriam daqui a 10 ou a 20 anos?
Obviamente que me parece que os deveria ensinar a serem dialogantes, tolerantes e respeitadores dos outros, confiando neles, ajudando-os, porque pertencemos todos ao mesmo grupo: somos todos humanos.
Mas os acontecimentos dos últimos tempos recomendar-me-iam que ensinasse aos meus filhos uma série de estratégias de auto-protecção, para evitar que, amanhã, fossem enganados e destruídos pelos seus semelhantes: os humanos.
Ontem, lendo o jornal O Público, fiquei a saber que a multinacional Shell terá pago para que um activista dos direitos ambientais fosse liquidado, porque esse activista liderou, nos anos 90, um grupo que se opunha à destruição dos recursos da comunidade de que era representante.
Ao longo destes dias, tenho acompanhado, com uma certa curiosidade, a busca das razões que levaram ao despenhamento do vôo da Air France. Se a hipótese de atentado terrorista me pareceu a mais viável - embora as consequências, a nível da segurança aérea, poderiam ser desastrasos para as companhias e para os negócios - , a substituição acelerada dos sensores de velocidade dos airbus e as explicações que alguma comunicação social nos mostrou, levam-me, para já, a achar que alguém tem andado a brincar com a vida dos outros. Tenho a sensação que aquilo que parece importar aos fabricantes de aviões e às companhias aéreas é tão somente o lucro, sendo os acidentes e as mortes números que uma qualquer estatística rapidamente fará esquecer.
Entretanto, por cá, ficámos já sobejamente esclarecidos que, quando confiamos o nosso (pouco) dinheiro a uma instituição bancária, nunca devemos acreditar naquilo que os gestores (nome curioso dos funcionários bancários 1) nos dizem ou propõem, pois corremos o sério risco de virmos a perder tudo (2). E a coisa torna-se ainda mais surreal quando não temos nenhuma informação fidedigna nem meios para a obter. Concretizando: uma conta rendimento é o mesmo que um depósito a prazo? Uma conta poupança aforro é o mesmo que um depósito a prazo? Uma conta super rendimento é o mesmo que um depósito a prazo? Tecnicamente, não o deve ser, pois se assim fosse não possuiria uma designação diferente, certo? Ora, em caso de insolvência, esses títulos ou depósitos, garantidos pelos bancos (3), não estarão garantidos pelo Fundo de Garantia Bancária, não é mesmo?
Começo a aprender que vivemos num mundo terrivelmente perigoso, onde existe uma fauna que não olha a meios para obter o que bem entende e, nesse contexto, eu teria muitas dificuldades em educar um filho meu segundo princípios que considero fundamentais, ensinando-o concomitantemente a proteger-se adequadamente destes seus semelhantes cujos princípios eu tenho sérias dificuldades em definir para não ser ofensivo.
(1) Há muitos anos atrás, num banco de pequena dimensão, que depois foi adquirido pelo BPI, conheci, pela primeira vez, um gestor de conta. Nome estranho e pomposo, cuja função compreendi que se resumia a tentar vender-me o maior número possível de produtos bancários. Como eu sempre fui um bocado decidido (quem me conhece, pode atestar que eu sou decidido até ao exagero e, não raras vezes, faço muita asneira, em virtude de não pedir conselho a ninguém!), decidi que iria comprar 300 acções da Unicer ao preço X. Ora o meu gestor, que não me recomendava nada essa aquisição, porque dizia que havia, no mercado, umas acções bancárias com um muito maior potencial de valorização, confessou-me que comprara, junto comigo, idêntico número de acções quando eu ordenara essa compra. Fiquei calado e nada disse. Estávamos na época das valorizações bolsistas. Tendo regressado da capital, aonde falara com uns amigos que, esses, andavam metidos, até ao pescoço, na especulação bolsista, ordenei a venda imediata das ditas acções, ao melhor preço e sem demora. A decisão, não explicada ao gestor, levou-o a fazer um telefonema, na minha presença, para o seu corrector, para que vendesse também ele as suas acções. Foi uma decisão acertada, pois cerca de uma semana depois a bolsa portuguesa entrou em correcção, como é vulgar dizer-se. E confessava-me o meu gestor de conta: o sr dr comprou, eu comprei; o sr dr vendeu, eu vendi. Estou a ganhar dinheiro consigo! Direi apenas que encerrei imediatamente a conta e nunca mais confiei num gestor, já que fiquei aterrado com a leviandade com que esses senhores gerem as nossas poupanças.
(2) Não sou cliente BPP. Mas tenho muitas dúvidas acerca da qualidade do nosso sistema financeiro, em particular dos nossos bancos. Acho que alguns deles só ainda não colapsaram porque os custos políticos e financeiros seriam de tal ordem que o país, todo, correria sérios riscos de entrar em bancarrota, tal os negócios e meandros que co-envolvem muitas empresas e muita gente. Mas é preciso muita cautela!
(3) BES, CGD e Santander. São exemplos, mas bastará olhar com cuidado para aquilo que todos os bancos, sem excepção, vendem aos seus clientes. E depois, de que adianta o banco garantir? É na justiça que as coisas terão que ser resolvidas e, conhecendo-se a rapidez e a sua capacidade de acção, só nos restará esperar que o galo cante para se ser ressarcido... (Refiro-me, obviamente, à lenda do galo de Barcelos!)

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